Medo de mudar de vida: por que o conhecido parece mais seguro?

Medo de mudar de vida pode aparecer de muitas formas: medo de mudar de emprego, de cidade, de casa, de relacionamento ou até de abandonar uma versão de si mesmo que já não faz mais sentido.

Às vezes, a pessoa sabe que precisa mudar. Mas, diante da possibilidade real de sair do conhecido, algo dentro dela trava.

Um dia, um jovem monge estava sentado no pátio do mosteiro lendo um livro antigo.

O sol atravessava as árvores devagar.

O vento movia as folhas.

E, por alguns instantes, tudo parecia simples.


Jovem monge lendo em um jardim silencioso antes de refletir sobre mudanças na vida

Até que ele encontrou uma frase que mexeu profundamente com seu coração:

“O segredo para uma vida verdadeira é seguir o seu entusiasmo.”

O monge fechou os olhos.

Aquilo parecia bonito.

Parecia leve.

Parecia quase uma resposta para tudo.

Ele pensou em quantas vezes havia se afastado do que desejava por medo. Quantas vezes havia se calado para evitar conflito. Quantas vezes havia escolhido o caminho conhecido, mesmo quando o conhecido já não trazia paz.

Então continuou lendo.

Algumas páginas depois, encontrou outra frase:

“Quando alguém tenta mudar, o habitual sempre luta contra o preferencial, porque seguir o novo exige a morte do velho.”

Dessa vez, o monge franziu a testa.

A primeira frase falava de entusiasmo.

A segunda falava de morte, resistência e desconforto.

E, de repente, aquilo que parecia claro começou a parecer contraditório.

Se eu devo seguir meu entusiasmo, pensou ele, por que aquilo que mais parece me chamar também desperta tanto medo?

Se o caminho novo é melhor, por que meu corpo parece querer voltar para o antigo?

Se existe vida no preferencial, por que abandonar o habitual parece tão assustador?

Com o livro nas mãos e o coração inquieto, ele foi procurar o mestre.

O discípulo leva sua dúvida ao mestre

O mestre estava no jardim, cuidando de pequenas plantas próximas ao muro.

O jovem se aproximou em silêncio.


Discípulo com um livro observa o mestre cuidando das plantas no jardim

— Mestre, posso lhe perguntar uma coisa?

— Fique à vontade.

— Li que devo seguir meu entusiasmo. Mas também li que, quando tento mudar, meu habitual luta contra meu preferencial. E isso me confundiu.

O mestre continuou mexendo na terra.

— Por quê?

— Porque o entusiasmo me parece algo leve. Quase alegre. Mas quando tento escolher o novo, sinto medo, tensão, desconforto. Às vezes parece que estou traindo uma parte antiga de mim. Então fico sem saber: se estou desconfortável, ainda estou seguindo meu entusiasmo?

O mestre sorriu de leve.

— Você está confundindo entusiasmo com sensação agradável.

O discípulo ficou quieto.

— Entusiasmo — disse o mestre — nem sempre é euforia. Às vezes é apenas a direção onde existe vida.

Nem todo caminho vivo começa confortável

O jovem olhou para o chão.

— Mas se existe vida, por que dói?

O mestre apontou para uma pequena muda que havia acabado de ser replantada.

— Veja esta planta. Ela estava em um vaso pequeno. Suas raízes já não tinham espaço. Se ficasse ali, talvez sobrevivesse por algum tempo. Mas não cresceria como poderia.

— Então o senhor a colocou na terra.

— Sim.

— E isso é bom para ela.

— É.

— Mas, no começo, ela murcha um pouco.

O discípulo observou melhor.

Era verdade.

A planta parecia viva, mas ainda sensível.

— Ela está morrendo? — perguntou o mestre.

— Não.

— Está se adaptando.

O jovem respirou fundo.

— Então o desconforto não significa necessariamente que estou errado?

— Não. Às vezes significa apenas que suas raízes foram tiradas de um lugar pequeno.

O habitual oferece segurança, mas nem sempre oferece paz

O discípulo ficou em silêncio por alguns instantes.

Depois disse:

— Mas o habitual parece tão forte. Mesmo quando não gosto dele, ele parece seguro.

— Porque ele é conhecido — respondeu o mestre.

— Mesmo quando me diminui?

— Principalmente quando é conhecido. A mente muitas vezes prefere uma prisão familiar a uma liberdade desconhecida.

O jovem sentiu aquelas palavras entrarem fundo.

— Então é por isso que eu posso desejar uma vida diferente e, ao mesmo tempo, ter medo dela?

— Sim. Uma parte sua quer crescer. Outra parte quer apenas sobreviver.

— E qual delas devo ouvir?

O mestre limpou as mãos na própria túnica.

— Você deve escutar as duas. Mas não deve entregar sua direção à parte que só conhece o medo.

O entusiasmo verdadeiro não exige ausência de medo

O discípulo ergueu os olhos.

— Então seguir o entusiasmo não é seguir apenas o que me deixa confortável?

— Não.

— E também não é me jogar em qualquer sofrimento achando que isso é evolução?

— Também não.

O mestre caminhou lentamente até uma árvore maior.

— Existem dois tipos de desconforto — disse ele. — Um que nasce quando você se abandona. Outro que nasce quando você começa a voltar para si.

O discípulo prestou atenção.

— O primeiro enfraquece. O segundo reorganiza.

— Como posso saber a diferença?

— Pergunte a si mesmo: este desconforto está me tornando menor ou mais verdadeiro?

O jovem repetiu a frase em silêncio.

Menor ou mais verdadeiro.

Aquilo parecia simples.

Mas não era pequeno.

Talvez fosse ali que o medo de mudar começasse a perder parte do seu poder.

O novo precisa virar chão

— Mestre, às vezes eu espero sentir confiança antes de mudar.

— Esse é um erro comum.

— Por quê?

— Porque o corpo confia naquilo que já viveu muitas vezes. Se você viveu anos se calando, seu corpo achará estranho quando você falar. Se viveu anos adiando, seu corpo achará estranho quando agir. Se viveu anos se encolhendo, seu corpo achará perigoso quando você ocupar espaço.

— Então ele não vai aprovar o novo no começo?

— Raramente.

— E o que faço?

— Não tente convencer seu corpo com grandes discursos. Dê a ele pequenas provas.

— Provas?

— Sim. Uma conversa um pouco mais verdadeira. Uma ação pequena em direção ao que importa. Um limite dito com calma. Um passo dado mesmo sem garantia. Uma escolha que não seja perfeita, mas seja mais honesta do que a antiga.


Monge caminhando por uma trilha enquanto atravessa o medo de mudar e seguir um novo caminho

O discípulo sentiu o peito aquecer.

— Então a mudança não precisa ser uma grande ruptura?

— Algumas vezes será. Mas, na maioria das vezes, começa como pequenas desobediências ao medo.

A frase que o discípulo levou consigo

O jovem fechou o livro que ainda segurava.

— Mestre, então o entusiasmo pode estar presente mesmo quando há medo?

— Pode.

— Mesmo quando há resistência?

— Pode.

— Mesmo quando o habitual grita para eu voltar?

— Principalmente aí você deve observar com mais cuidado.

O discípulo respirou fundo.

— Então como devo caminhar?

O mestre respondeu:

— Caminhe sem exigir que o novo pareça seguro antes de ser vivido. Caminhe pequeno, mas caminhe. O entusiasmo verdadeiro nem sempre começa como alegria. Às vezes começa como uma sensação silenciosa de dignidade.

O jovem ficou imóvel.

A palavra dignidade parecia ter aberto uma porta.

O mestre continuou:

— Não pergunte apenas: “isso me deixa confortável?” Pergunte: “isso me aproxima da vida que eu digo querer viver?”

O discípulo sentiu que a dúvida não havia desaparecido completamente.

Mas agora ela já não parecia uma parede.

Parecia uma passagem.

Talvez você também esteja nessa travessia

Talvez exista uma parte da sua vida em que o antigo já ficou pequeno.

Um relacionamento onde você se cala demais.

Um trabalho onde você se abandona demais.

Um sonho que você pensa demais e pratica de menos.

Uma decisão que você adia porque espera o medo desaparecer.

Mas talvez o medo não desapareça antes do primeiro passo.

Talvez ele apenas diminua depois que você prova para si mesmo que consegue atravessar.

Porque entusiasmo não é sempre aquela sensação bonita de leveza.

Às vezes entusiasmo é a vida chamando você para fora de uma versão antiga.

E, no começo, sair dessa versão pode parecer estranho.

Pode parecer desconfortável.

Pode até parecer uma pequena morte.

Mas talvez seja apenas o velho perdendo força.

E o novo, finalmente, começando a criar raízes.

Para manter a calma e o entusiasmo diante dos desafios até alcançar seus objetivos, participe da experiência A Virada com Deus

Conheça a experiência completa ou acesse o kit por aqui.

Continue pela página inicial da Elevalive e confira outros artigos sobre presença, fé, relacionamentos e mudança interior.

Leia também:

Deixe um comentário